PesquisaJul 16 2026
A nostalgia tornou-se um estado permanente da cultura
Antes considerada uma doença mental, hoje é uma tendência perene. Em um nível mais profundo, a nostalgia tornou-se um estado permanente da cultura contemporânea.
Marek Tobota
Digital Ethnographer | Social Media Strategist

Da doença à força cultural

No século XVII, o médico suíço Johannes Hofer cunhou uma palavra para designar a saudade angustiante que os mercenários suíços sentiam enquanto serviam longe de casa. Ele a chamou de “nostalgia”, a partir das palavras gregas “nostos” (retorno ao lar) e “algos” (dor). No século XVIII, a nostalgia já havia se tornado um diagnóstico médico oficialmente reconhecido em toda a Europa.

Hoje, a nostalgia toma conta dos nossos feeds de conteúdo, impulsiona marcas de todos os portes e molda a forma como gerações inteiras se relacionam entre si. A trajetória que a levou de transtorno psiquiátrico a superpotência cultural representa uma das reabilitações mais notáveis da história das emoções humanas. A nostalgia é cada vez mais importante para quem busca compreender a cultura de consumo contemporânea.

#nostalgia, total videos for hashtag from January 2022

Emoção horizontal

Praticamente qualquer coisa pode despertar nostalgia. Uma análise de hashtags no TikTok revela uma história interessante. Vamos analisar a cobertura dos últimos meses para identificar padrões atuais relevantes:

  • Tempo — a associação mais forte de hashtags ocorre com os anos 2000, mas os anos 90 geram o maior volume de vídeos e visualizações.
  • Entretenimento — games são praticamente uma categoria à parte, seguidos por filmes, música e celebridades. O tema abrange tanto tecnologia quanto conteúdo, como VHS e filmes da era de ouro de Hollywood.
  • A nostalgia, por si só, está se tornando um segmento de conteúdo independente. As pessoas fazem referência a memórias da infância, aos “bons velhos tempos” ou até mesmo aos primórdios do próprio TikTok (#OldTikTok).

#nostalgia hashtag overlap with adjacent hashtags

A nostalgia não é um gênero. É uma infraestrutura. Ela permeia diferentes categorias de conteúdo porque as pessoas buscam estados emocionais, e não objetos específicos. É por isso que se manifesta de forma recorrente em comunidades que vão muito além do entretenimento.

A implicação para pesquisadores e profissionais de marketing é significativa: a nostalgia não pode ser monitorada em apenas um recorte da conversa cultural. Ela precisa ser mapeada como um fio condutor que permeia, simultaneamente, diversos ecossistemas de conteúdo.

Why is TikTok social listening important for your brand?

Direta e indireta: repensando o que se considera nostalgia

Talvez o mito mais persistente sobre a nostalgia seja o de que ela exige uma memória pessoal. Não exige. Podemos distinguir a nostalgia direta — baseada em experiências vividas — da indireta, que é imaginada, construída e, muitas vezes, baseada em experiências de terceiros. O ressurgimento dos gravadores de fita entre a Geração Z, o interesse renovado por câmeras digitais antigas entre pessoas que nunca tiraram fotos sem um smartphone e o apreço pela estética da internet do início dos anos 2000 entre adolescentes que nasceram depois que a maioria dessas plataformas atingiu seu auge — nada disso é nostalgia falsa. É um tipo diferente de nostalgia, mas nem por isso é menos real do ponto de vista emocional.

Não é apenas fadiga tecnológica

É comum recorrer a uma simplificação analítica que equipara a nostalgia por tecnologias mais antigas ao esgotamento causado pelas mais recentes. A fadiga tecnológica é real, mas explica apenas parte do que está acontecendo.

O interesse crescente por celulares básicos e a presença cada vez maior da nostalgia pelos celulares flip na cultura são, por vezes, interpretados como sinais de uma rejeição mais ampla aos smartphones. Essa interpretação não capta o aspecto mais interessante dessa história. Não se trata de nostalgia por menos tecnologia, mas por uma relação diferente com ela: uma relação em que o usuário molda a experiência, em vez de ser moldado por ela.

#dumbphone, total videos for hashtag from December 2022

A nostalgia digital ganha força segundo uma lógica própria, reacendendo a paixão por videogames antigos e inspirando a criação de novas plataformas sociais que resgatam o espírito dos primeiros fóruns e, de forma mais ampla, da internet pré-IA. Essa nova valorização dos primeiros fóruns se reflete na importância crescente das seções de comentários em plataformas como o TikTok, onde a conversa ganha cada vez mais relevância e passa a ter tanto peso quanto o conteúdo. Basta buscar por “Estou #aqui só pelos comentários” no feed de comentários.

Why TikTok is a powerful tool for Digital Ethnography: Memes, Microcultures and Meaning.

A nostalgia não perderá força, mas ganhará velocidade

A onipresença da nostalgia na publicidade é, por vezes, vista como um sinal de que essa tendência está próxima do esgotamento. O argumento é o seguinte: quando todas as marcas adotam o mesmo tom emocional, ele perde força e os consumidores passam a ignorá-lo.

Esse raciocínio se aplica bem a referências nostálgicas específicas, mas parte de uma compreensão equivocada de como a nostalgia funciona. A saturação da estética dos anos 80 na publicidade não significa que as pessoas deixem de sentir nostalgia. Significa que deixam de sentir nostalgia dos anos 80 daquela maneira específica, enquanto a energia emocional migra para um novo ponto de referência.

Os ciclos da nostalgia estão se acelerando. Essa aceleração tem uma causa estrutural: o ritmo acelerado das transformações tecnológicas e sociais encurta a distância entre o presente e o passado. O que antes levava décadas para se cristalizar na memória cultural agora acontece em poucos anos. O próprio TikTok — uma plataforma com apenas sete anos de existência à época em que este texto foi escrito — já desenvolveu um ecossistema interno de nostalgia em torno de seus primeiros anos. As pessoas publicam conteúdos relembrando como era a experiência na plataforma no passado. O TikTok tornou-se autorreferencial em sua própria arqueologia emocional.

#oldtiktok, total videos for hashtag from January 2022

Mapeie o sentimento, não apenas a referência

A nostalgia surgiu como um diagnóstico. Tornou-se um sentimento. Hoje, é um ecossistema de conteúdo, uma estratégia de produto e um mecanismo de bem-estar — tudo isso ao mesmo tempo.

Monitorar a nostalgia exige observar não apenas as referências explícitas a épocas ou objetos específicos, mas também os padrões emocionais subjacentes — pertencimento, simplicidade, participação e conexão interpessoal — que o conteúdo nostálgico de fato expressa. As referências mais visíveis mudam a cada ciclo de tendências. A arquitetura emocional por trás delas permanece notavelmente estável.

Não veremos o fim da nostalgia. Veremos suas novas manifestações surgirem mais rapidamente, ampliarem seu alcance e conectarem comunidades cada vez mais inesperadas. A nostalgia não é apenas uma emoção voltada para o passado; é um mecanismo cultural para lidar com a aceleração das mudanças.

Este artigo foi elaborado pelo especialista em inteligência de mídias sociais, etnógrafo digital e analista de tendências Marek Tobota, que também é fundador da Data Tribe, uma boutique de estratégia e pesquisa sediada em Varsóvia. Marek tem ampla experiência em marketing e relações públicas e busca constantemente novas formas de realizar pesquisas qualitativas na internet. Ele usa a Exolyt principalmente em pesquisas direcionadas para obter insights exclusivos sobre o TikTok e suas comunidades de nicho. Para saber mais sobre Marek e seu trabalho, conecte-se diretamente com ele pelo LinkedIn.

Faça monitoramento e social listening no TikTok

Agende uma demonstração ao vivo com nosso gerente de produto ou inicie hoje mesmo seu teste gratuito para conhecer, na prática, os benefícios da plataforma

Marek Tobota
Digital Ethnographer | Social Media Strategist